Por Que Eu Construo Dashboards Como Quem Reza Pela Sobrevivência da Minha Cidade Natal
Análise por Joelma Barbosa
Fundadora & CEO da Compass Rose Analytics
Sobre o paradoxo que ninguém fala: cidades mineradoras são ricas hoje, quebradas amanhã
Eu sou uma autêntica “pé-vermelho”, e, se você não sabe o que isso significa, é sinal de que não nasceu perto de Minas Gerais.
Cresci vendo caminhões carregados de minério descendo a estrada em disparada, aquela poeira fina grudando no rosto, ouvindo adultos falar de “royalties” como se fossem uma bênção eterna. Na escola, o mapa da cidade parecia simples: mina, barragem, bairro dos trabalhadores, praça, igreja.
Mais tarde, já adulta, descobri o que ninguém diz no alto-falante: quando quase todo o dinheiro da cidade vem da mina, a cidade vive bem hoje, mas dorme agarrada a um medo que ninguém confessa.
Esse tema é profundamente importante para mim porque não é teoria de planilha ou tendência de consultoria. É história de casa. Gente que fala como eu. Gente que trabalha em turnos pesados. Gente que vê o orçamento inflado agora, mas não tem certeza se os filhos vão encontrar a mesma cidade de pé quando o minério acabar.
É por isso que eu falo de dados com a voz embargada: para mim, Business Intelligence, Power BI, Tableau e analytics não são só palavras bonitas em inglês; são ferramentas para que cidades como a minha tenham futuro quando o barulho dos caminhões, um dia, finalmente se silenciar.
O Medo Traduzido em Métricas
Foi por isso que a Compass Rose Analytics nasceu assim: metade negócio, metade ajuste de contas com minha própria história.
Em vez de olhar “para o mercado” abstratamente, noite após noite, me peguei debruçada sobre planilhas de municípios mineradores, triturando números como quem reza: “E se a CFEM (royalty da mineração) cair 10%? E se cair 30%? Quanto tempo essa cidade aguenta?”
Não era curiosidade acadêmica. Era medo traduzido em métricas. O medo de ver o mesmo roteiro se repetir em dezenas de cidades: hoje, a gestão pública nada em números; amanhã, não consegue pagar o básico.
E esse roteiro não é ficção minha. Ele já aconteceu. Aconteceu aos montes. E não precisamos ir longe para ver as ruínas.
O Mundo Já Escreveu Esse Roteiro — Em Carvão, Aço e Petróleo
Gary, Indiana: A Cidade Que o Aço Construiu e o Aço Destruiu
Em 1906, a U.S. Steel fundou uma cidade inteira no sul do Lago Michigan para servir sua siderúrgica, a maior do mundo na época. Chamaram de Gary. No pico, em 1960, quase 180 mil pessoas moravam ali. Tinha teatro, cinema, comércio vibrante, escolas novas. A usina empregava mais de 30 mil trabalhadores. O futuro parecia óbvio e eterno.
Depois veio a concorrência internacional. A automação. A queda na demanda de aço americano. Em 1990, a mesma usina empregava apenas 6 mil pessoas. A população despencou mais de 60%. Hoje, aproximadamente um terço dos imóveis da cidade está abandonado. Igrejas viraram ruínas. Escolas fecharam. O centro virou fantasma.
A tentativa de diversificar veio tarde demais: construíram um centro de convenções, um cassino e um estádio. Nada reverteu a espiral. Gary entrou para a história como uma das cidades mais decadentes dos Estados Unidos, e não por falta de recursos no passado, mas por excesso de confiança num único recurso.
O paralelo com municípios mineradores brasileiros é direto: substitua “aço” por “minério de ferro” e “U.S. Steel” por qualquer mineradora de grande porte, e o roteiro é idêntico. Riqueza concentrada. Dependência total. Colapso quando a fonte seca.
Centralia, Pensilvânia: A Cidade Que o Carvão Engoliu (Literalmente)
Centralia chegou a ter quase 2.800 moradores no auge da mineração de antracito, em 1890. Sete igrejas. Cinco hotéis. Vinte e sete bares. Catorze mercearias. Uma cidade pequena, mas completa.
Em 1962, um incêndio de rotina num lixão instalado numa mina abandonada atingiu uma veia de carvão subterrâneo. Ninguém conseguiu apagar. O fogo se espalhou por quilômetros de túneis abandonados debaixo da cidade. Temperaturas no subsolo passaram de 480°C. Buracos se abriam no asfalto. Gases tóxicos invadiam porões. Um garoto de 12 anos quase morreu ao cair num sumidouro de quase 50 metros que surgiu sem aviso no quintal.
Em 1984, o Congresso americano destinou mais de US$ 42 milhões para relocar os moradores. Quinhentas estruturas foram demolidas. O serviço postal cancelou o CEP da cidade em 2002. Hoje, restam menos de 10 pessoas em Centralia. As ruas ainda existem, mas levam a lugar nenhum.
Centralia é um caso extremo, mas o mecanismo é universal: uma cidade construída sobre um recurso finito e perigoso, sem plano B, sem fundo de transição, sem diversificação. Quando o recurso se tornou o problema, não havia estrutura para absorver o impacto.
Appalachia e West Virginia: O Carvão Que Sustentava Tudo (Até Que Não Sustentava Mais)
Em 1940, a indústria do carvão empregava 130 mil mineradores apenas em West Virginia. Era o coração econômico da região dos Apalaches. Cidades inteiras nasceram ao redor das minas, as chamadas company towns, construídas pelas próprias mineradoras para abrigar os trabalhadores.
A produção de carvão no estado caiu cerca de 38% entre 2008 e 2015. Em Boone County, metade da população trabalhava diretamente em minas de carvão em 2008; em 2016, o emprego total no condado havia despencado mais de 80%. Hoje, restam menos de 12 mil empregos diretos na mineração de carvão em todo o estado.
As consequências não são apenas econômicas. Condados dependentes de carvão nos Apalaches apresentam taxas altíssimas de doenças cardíacas, diabetes, obesidade e dependência de opioides. A expectativa de vida nessas regiões está entre as mais baixas do país. Lojas fecharam. Casas foram abandonadas. Jovens foram embora.
O paralelo? Empresas que exaurem os recursos vão embora. Empregos evaporam. A infraestrutura fica ociosa. E a população, que não tem para onde ir com a mesma facilidade, fica presa numa economia fantasma.
Williston, Dakota do Norte: O Boom do Petróleo Que Veio, Fez Festa e Sumiu
A região de Bakken, no noroeste da Dakota do Norte, vivia pacata com seus 12 mil habitantes até meados dos anos 2000, quando a técnica de fraturamento hidráulico (fracking) tornou economicamente viável extrair petróleo das rochas da região. Em poucos anos, a população mais do que dobrou. O condado de Williams teve crescimento de 83%: o segundo maior dos EUA.
Acampamentos temporários, chamados de man camps; dormitórios portáteis para trabalhadores do petróleo, surgiram por toda parte. Um deles, o Capital Lodge, custou US$ 40 milhões e foi construído com 1.100 leitos. Depois da queda do preço do petróleo em 2014, o lodge foi abandonado.
O número de plataformas de perfuração ativas no estado caiu de 218 no pico de 2012 para apenas 26 em 2016. Milhares de trabalhadores ficaram sem emprego. O Exército da Salvação passou a oferecer passagens de ônibus de ida para que desempregados pudessem voltar para casa, pois Williston não tem abrigo para sem-teto.
Isso aconteceu nos Estados Unidos, a maior economia do mundo. Com regulação. Com dados públicos. Com infraestrutura. Imagina o impacto do mesmo ciclo em municípios brasileiros mineradores, onde a transparência é mais opaca e os instrumentos de planejamento mais frágeis.
Nauru: A Ilha Que Tinha o PIB Per Capita Mais Alto do Mundo (E Virou Uma das Mais Pobres)
Este é talvez o exemplo mais brutal de todos. Nauru é uma pequena ilha-nação no Pacífico Sul, com apenas 21 km² de superfície. Nas décadas de 1970 e 1980, graças às suas vastas reservas de fosfato, Nauru tinha um dos maiores PIBs per capita do mundo. Moradores recebiam royalties tão generosos que muitos nem precisavam trabalhar.
O governo comprou uma frota de aviões e investiu em projetos que deram errado; inclusive, um musical sobre Leonardo da Vinci, em Londres, que fechou depois de um mês, gerando prejuízo equivalente a milhões. Ninguém planejou o pós-fosfato.
Quando as reservas se esgotaram, nos anos 2000, o resultado foi devastador. Cerca de 80% da superfície da ilha ficou inabitável, um deserto de pináculos de calcário onde nada cresce. O fundo soberano, criado para garantir o futuro da nação, encolheu drasticamente devido à má gestão. Em 2013, quase um quarto da população vivia abaixo da linha de pobreza.
Em 2025, o governo lançou um programa de “passaportes dourados” para arrecadar fundos e realocar 90% de sua população para terreno mais alto.
Nauru é o que acontece quando você gasta a riqueza do subsolo como se fosse eterna, sem converter nenhuma parcela dela em capacidade de sobrevivência pós-recurso. É a versão extrema de cada município minerador que hoje nada em CFEM e não reserva um centavo para o dia em que os caminhões pararem.
Os Padrões Que Se Repetem: Do Carvão ao Minério, O Roteiro É Sempre o Mesmo
A partir dos casos acima, Gary, Centralia, Appalachia, Williston, Nauru, alguns padrões surgem com clareza dolorosa:
Dependência extrema de uma única fonte de renda: royalties, mineração e petróleo, sem diversificação econômica local. Quando 90% da receita vem de uma fonte só, você não tem uma economia; tem uma aposta.
Crescimento rápido, com investimento pesado em infraestrutura pública durante o boom: escolas, estradas, serviços, tudo financiado pela receita própria. Tudo dimensionado para um volume de dinheiro que não é permanente.
Ausência de planejamento para o pós-exaustão. Quando o campo seca, a mina fecha ou o preço cai, o que segue é previsível: falência de empresas locais, queda brusca de arrecadação e migração em massa.
Legado de passivos ambientais e urbanos: minas não recuperadas, poços abandonados, bairros com infraestrutura ociosa, imóveis deteriorados.
Diversificação que chega tarde demais. Em quase todos os casos, as tentativas de reinventar a economia local ocorreram depois do colapso, não antes.
Agora Olhe Para Os Números Do Seu Município
E aqui está o que encontrei, repetidas vezes, ao analisar dados de municípios mineradores brasileiros:
Imagina isso. Um município minerador típico do Sudeste brasileiro. R$ 350 milhões entrando. R$ 430 milhões saindo.
Leu certo! A cidade gasta R$ 80 milhões A MAIS do que arrecada. Todo. Santo. Ano.
E, de alguma forma, todo mundo age como se isso fosse normal porque “temos os royalties.”
Entre R$ 60 e R$ 70 milhões em royalties da mineração por ano. Cerca de 90% da receita corrente depende, direta ou indiretamente, desse dinheiro.
Gary tinha aço. Centralia tinha carvão. Williston tinha petróleo. Nauru tinha fosfato. Seu município tem CFEM.
A pergunta não é se o ciclo vai mudar. É quando. E se sua cidade vai estar preparada quando isso acontecer.
As Perguntas Que Ninguém Quer Fazer em Voz Alta
Quanto tempo isso dura? Sob cenários concretos de queda da CFEM (10%, 30%, 50%), quantos anos até o padrão de gastos atual entrar em colapso?
De onde mais pode vir dinheiro? Quais fontes de receita (ISS, IPTU, taxas) já existem, mas são subexploradas: estão ali mesmo, nos próprios dados da cidade, invisíveis porque ninguém conectou os pontos?
E a grande questão: Quanto da riqueza extraordinária de hoje estamos realmente convertendo na sobrevivência de amanhã?
Se Nauru tivesse feito essas perguntas nos anos 1970, talvez seus netos não estivessem hoje comprando passaportes estrangeiros para ter para onde ir. Se Gary tivesse diversificado nos anos 1960, talvez suas igrejas não estivessem em ruínas a céu aberto.
As respostas quase sempre estão espalhadas em sistemas diferentes: SIAFI, portais de transparência, relatórios em PDF, planilhas internas, contratos. A informação existe. Os dados estão lá. Enterrados em dez sistemas diferentes, claro. Mas estão lá.
O que falta? Alguém para conectar os pontos.
É aqui que entramos.
Por Que Eu Não Queria Ser Só Mais Uma Consultoria
Eu não quero que a Compass Rose seja mais uma firma vendendo “Business Intelligence e Power BI para governo” como se fosse um catálogo de produtos. Eu quero ser a pessoa que aparece quando o prefeito está perdendo o sono, pensando: “E se a CFEM cair 30% no ano que vem?”
Aquela que entende que ele precisa de alguém para olhar os números sem fingir que está tudo bem. Sem jargão corporativo. Sem relatórios de 90 páginas que vão para a gaveta. Alguém que entende: isso não é sobre “otimizar KPIs”. Isso é sobre se a cidade dele vai existir daqui a 15 anos.
Porque o prefeito de Gary provavelmente também achava que o aço era eterno. O governo de Nauru provavelmente acreditava que o fosfato duraria para sempre. E os líderes de Williston certamente acharam que o preço do petróleo nunca cairia abaixo do ponto de equilíbrio.
Fase 1: Mostrar o Medo em Números
Construir um dashboard que responda à pergunta que tira o sono do prefeito em 3 segundos: “Quanto tempo temos se a CFEM cair 30%?”
Não é um relatório de 40 páginas. É uma tela única que mostra:
- Grau real de dependência dos royalties — a porcentagem verdadeira, não a versão oficial.
- Comportamento da receita ao longo do tempo — está estável? Caindo? Volátil?
- Cenários de sobrevivência — queda de 10% = X meses de fôlego; queda de 30% = colapso fiscal em Y meses.
Esse é o momento em que a negação deixa de ser uma opção. Quando o prefeito olha para a linha de tendência e percebe: “A gente estava caminhando para um precipício no escuro, e alguém acabou de acender a luz.”
Fase 2: Achar o Dinheiro Que Você Não Sabia Que Tinha
Usar dados existentes para cruzar:
- Empresas ativas — quem opera na cidade e em quais setores?
- Receita tributária por setor — de onde vem dinheiro que não é mineração?
- Vocações territoriais — o que essa cidade faz de verdade bem além de extrair minério?
No mês passado, analisei dados de um município mineiro. Estavam gastando R$8 milhões/ano em “consultorias não especificadas”. Essa rubrica cresceu 340% em 3 anos com zero prestação de contas.
Quando mostrei ao prefeito um único gráfico com essa tendência, ele ficou em silêncio por 30 segundos. Depois disse: “A gente estava tapando buracos com dinheiro que deveria estar construindo nosso futuro.”
Esse é o momento em que analytics vira sobrevivência.
Fase 3: Tratar o Orçamento Como um Organismo
Comparar gastos com municípios similares. Identificar rubricas descontroladas. Simular economias viáveis para liberar recursos, não cortando os essenciais, mas estancando a hemorragia em lugares onde ninguém estava olhando.
Depois, redirecionar esse dinheiro. Não para “manter a sensação de abundância”, mas para comprar o futuro da cidade enquanto ainda dá tempo. Cada real de CFEM gasto hoje no piloto automático operacional é um real a menos do fundo de transição.
West Virginia está aprendendo essa lição da maneira mais dolorosa. Hoje, a Coalizão ACT Now tenta transformar 21 condados do sul do estado em polos de energia limpa, usando justamente as minas abandonadas como ativos. Mas esse esforço vem décadas depois do colapso.
A pergunta é: por que esperar o colapso para agir?
O Piloto de 90 Dias: Por Que Movemos Rápido
Eu não ofereço estudos diagnósticos de 6 meses. Prefeitos operam em ciclos políticos. Se você espera meio ano para ver resultado, a pressão e as prioridades mudam, e o projeto morre em uma gaveta.
Entregamos rápido porque sobrevivência não espera pelo “momento perfeito.”
Por Que 90% das Cidades Mineradoras Não Vão Fazer Isso (E Tudo Bem)
Alguns prefeitos vão ler isso e não vão fazer nada. Tudo bem. Eu não estou aqui para julgar, muito pelo contrário!
Mas Gary também era excepcional. A maior siderúrgica do mundo. A “Cidade do Século.” E perdeu 60% de seus moradores.
Nauru também era excepcional. O maior PIB per capita do planeta. E hoje vende passaportes para sobreviver.
Williston também era excepcional. O coração da revolução do fracking americano. E distribuiu passagens de ônibus de ida para que seus trabalhadores desempregados pudessem voltar para casa.
Hoje: “Tá tranquilo, os royalties tão fortes.”
Amanhã: “Como a gente não viu isso chegando?”
Eu estou aqui para os prefeitos que olham para os R$ 60 milhões do CFEM e sentem, no fundo, que isso é contagem regressiva, não uma bênção. Os que sabem que coragem política não é tomar decisões populares: é tomar as difíceis antes que seja tarde demais.
Andar no Escuro É Uma Escolha Agora
Andar no escuro, com tanto dado disponível, pode continuar sendo um hábito. Mas não é mais inevitável.
A Compass Rose Analytics nasceu nesse ponto de inflexão: enquanto ainda tem caminhão carregado descendo a serra. Enquanto ainda dá tempo de usar a riqueza de hoje para construir a independência de amanhã.
O barulho dos caminhões vai silenciar um dia. A única pergunta é se sua cidade ainda vai estar de pé quando isso acontecer. Rezo para que estejam, afinal, o lugar onde nascemos é para onde nosso coração aponta.
Entre em contato. Vamos traçar o futuro da sua cidade antes que a contagem regressiva chegue a zero.
Você pode checar todas essas informações aqui:
Gary, Indiana: Wikipedia; Atlas Obscura, “What Can We Learn From the Ruins of Gary, Indiana?” (2025); World Abandoned (2022).
Centralia, Pennsylvania: Wikipedia; HISTORY, “This Mine Fire Has Been Burning For Over 50 Years”; Atlas Obscura (2026).
Appalachia / West Virginia: Columbia University, State of the Planet, “Life After Coal” (2020); Brookings Institution (2024); Marshall University, CBER (2016).
Williston, Dakota do Norte: CNBC (2016); KARE 11 (2016); NPR, “When a Boomtown Goes Bust” (2020); Wikipedia.
Nauru: Think Landscape / Global Landscapes Forum (2025); Interesting Engineering (2023); Wikipedia; Journal de la Société des Océanistes (2014).



